Os Estranhos: Capítulo Final

Crítica – Os Estranhos: Capítulo Final

Sinopse (imdb): Os sobreviventes enfrentam novas ameaças de estranhos mascarados. Segredos vêm à tona, colocando suas vidas em risco à medida que a linha entre a realidade e o perigo se confunde em sua luta pela sobrevivência.

Era pra ser um filme só. Resolveram esticar e lançar em três partes. Se a primeira e a segunda parte são ruins, qual era a chance da conclusão ser boa? Quase zero, né? Mesmo assim, fui ver. E confirmo: já tenho um filme certo na minha lista de piores de 2026.

A trama é o de sempre. Maya continua fugindo dos assassinos mascarados. Basicamente só isso. Claro, precisamos ter um longa metragem, então vemos mais flashbacks desnecessários, explicando coisas que não precisavam ser explicadas. O roteiro é péssimo (assim como nos filmes anteriores), não tem nenhuma cena impactante. Pior: o filme tenta criar uma reviravolta onde a Maya viraria assassina junto com os mascarados. Ideia ruim, e ainda por cima mal desenvolvida.

(Determinado momento, um personagem está ouvindo uma pregação religiosa. Acho que teve algo assim no primeiro filme, não lembro e nem vou catar pra rever. Mas poderia ser um bom caminho para a trama, entrar no fanatismo religioso. Mais uma ideia jogada fora.)

Heu sei que boa parte dos filmes de terror que a gente vê são baseados em decisões burras de personagens. Isso é algo comum. Mas aqui tem algumas decisões que desafiam qualquer lógica. Logo em uma das primeiras cenas, a protagonista está fugindo, encontra uma igreja, e tem um piano na igreja. POR QUE DIABOS ELA VAI TOCAR O PIANO??? QUE TIPO DE IDIOTA QUE ESTÁ FUGINDO DE ASSASSINOS VAI FAZER BARULHO COM UM INSTRUMENTO MUSICAL???

Não é a única atitude burra dela. Tem uma hora que ela consegue um carro e começa a fugir. E BATE O CARRO NUMA ÁRVORE!!! Caramba, como é que o espectador vai torcer por uma personagem tão ruim? Detalhe: ela bate o carro e o mascarado estava ali ao lado dela, pronto pra captura-la de novo.

Os Estranhos Capítulo Final é tão tosco que a página do imdb está meio zoada. A sinopse não está correta, fala de “sobreviventes”, é uma única sobrevivente. E o nome da atriz principal, Madelaine Petsch, a única atriz relevante nessa joça, é o quinto nome da lista do “elenco principal”. Nem o imdb leva a sério essa porcaria.

Heu podia falar mais. Mas seria chutar cachorro morto. Os Estranhos Capítulo Final é um erro. A única coisa boa é que acabou, espero que respeitem a ideia do “capítulo final”. Quando acabou o filme, fiquei tentando me lembrar de uma trilogia de terror pior que essa. Não consegui. Você sugere alguma?

Devoradores de Estrelas

Crítica – Devoradores de Estrelas

Sinopse (imdb): Um astronauta tenta salvar a Terra enquanto está sozinho no espaço sideral.

Fico feliz quando um filme que estava na minha lista de expectativas se revela uma boa surpresa!

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, no original) é o novo filme da dupla Phil Lord e Christopher Miller, de Uma Aventura Lego. Digo mais: o roteiro é de Drew Goddard, baseado num livro de Andy Weir, mesmos de Perdido em Marte. Com esse pedigree, a expectativa era alta. E preciso dizer que não saí do cinema decepcionado – Devoradores de Estrelas é emocionante e divertido, e vai fazer o espectador rir e chorar. Provavelmente estará na minha lista de melhores de 2026!

Grace acorda de um coma, num foguete interestelar, sem saber onde está e sem se lembrar de como foi parar ali. Através de flashbacks, descobrimos que ele é um professor de escola fundamental e está numa missão para salvar o sol. Ao chegar perto de outra estrela, acaba tendo contato com um ser alienígena, que aparentemente está naquele local em uma missão semelhante.

Toda a relação de amizade entre Grace e o alienígena, que ganha o apelido de Rocky, é muito bem construída. Desde os primeiros contatos, toda a construção da comunicação e depois a relação de interdependência – um ajuda o outro quando trabalham juntos. Além disso, todo o conceito do Rocky é muito bem bolado. O Rocky é completamente diferente de alienígenas presentes no audiovisual das últimas décadas, que normalmente usam formatos mais humanoides.

Sabendo que a direção era de Phil Lord e Christopher Miller, heu já desconfiava que seria um filme com muito humor. E sim, Devoradores de Estrelas tem várias sequências engraçadíssimas. A surpresa foi ver que os caras também sabem mexer com a emoção do espectador. Acredito que boa parte da audiência vai sair do cinema com olhos marejados, acompanhando a relação entre Grace e Rocky. Além disso, preciso dizer que algumas cenas são bem tensas, a dupla Lord & Miller acerta o ponto em todos os climas necessários.

Devoradores de Estrelas é baseado no livro homônimo. Não li, mas um amigo meu que leu fez uns comentários depois da sessão. Algumas alterações entre livro e filme não atrapalharam, como por exemplo a personalidade da personagem da Sandra Hüller, que no livro é mais séria. Mas teve uma coisa que senti falta. A gente aprende que eles precisam ir até uma estrela que fica a 11 anos luz de distância. Com a tecnologia atual, demoraria um absurdo de tempo – perguntei ao google, a resposta foi que precisaria de mais de 100 mil anos (não sou físico, peço desculpas). Mas o livro explica que os recém descobertos astrofágicos fazem possível uma viagem quase na velocidade da luz. Achei que faltou essa explicação no filme, seria um diálogo de poucos segundos.

Tecnicamente, o filme é perfeito. Não tenho uma vírgula a falar sobre os efeitos especiais, tanto do que acontece na nave espacial, quanto na parte alienígena. Aliás, teve um detalhe que achei genial: quando a nave está em gravidade zero, Grace fica flutuando, então ele amarrou cordas pelos corredores da nave, para ficar se locomovendo puxando pelas cordas.

No elenco, este é “o filme” do Ryan Gosling. Boa parte da projeção ele está sozinho, e seu personagem tem carisma o suficiente pra gente ficar ao lado dele e torcer por ele. E ele ainda protagoniza várias cenas bem engraçadas. Este filme não tem perfil de premiações, mas se ano que vem ele ganhar uma indicação ao Oscar por este papel, não será injusto.

Tem gente por aí comparando Devoradores de Estrelas com Interestelar. Mas preciso dizer que não concordo – Devoradores de Estrelas é muito melhor que o superestimado Interestelar. Nunca entendi por que tanta gente idolatra Interestelar, pra mim é um dos piores filmes do Christopher Nolan. Uma vez, conversando com um fã do Nolan, descobri que minha maior implicância com o diretor é por causa de Interestelar, o resto da sua filmografia é bem melhor (Inception, trilogia do Batman, Amnésia, Oppenheimer, vários grandes filmes). Enfim, aparentemente sou minoria, mas, pra mim, Interestelar não chega aos pés de Devoradores de Estrelas.

Por fim, queria comentar uma coisa que não tem nenhuma importância, mas heu curti: as camisas usadas pelo dr. Grace são camisas do estilo que heu gosto. Se heu ainda tivesse uma loja de camisas, provavelmente ia catar algumas daquelas estampas!

Devoradores de Estrelas é longo, são duas horas e trinta e seis minutos. Mas a trama é tão bem conduzida que não cansa. É o primeiro “filme obrigatório” de 2026!

Para Sempre Medo

Crítica – Para Sempre Medo

Sinopse (filmeb): O casal Malcolm e Liz viaja para uma cabana isolada para uma celebração romântica. Quando Malcolm parte inesperadamente para a cidade, Liz é confrontada por uma presença sinistra.

Em 2024, o diretor Osgood Perkins – ou Oz Perkins – lançou Longlegs, terror misturado com filme de investigação. Logo no ano seguinte, ele fez o divertido O Macaco, slasher misturado com comédia de humor negro. Lembro que na época que O Macaco foi lançado alguém me falou que tinha outro filme do mesmo diretor previsto para o mesmo ano, que era este Para Sempre Medo (Keeper, no original). A previsão era pra 2025, mas adiaram pro início de 2026.

Ti West dirigiu X, Pearl e Maxxxine, três filmes independentes, se passam em épocas diferentes, com personagens diferentes – mas três filmes que “conversam” entre si e podem ser vistos como uma trilogia. Já esses últimos três filmes do Oz Perkins estão bem longe de ser uma trilogia. Para Sempre Medo é um suspense onde uma mulher acha que está presa a um relacionamento abusivo, com uma pegada de terror sobrenatural na parte final – não digo mais por causa de spoilers.

(Heu acho que o melhor seria assistir Para Sempre Medo sem saber da parte sobrenatural, mas, mais uma vez, o trailer entrega mais do que deveria. Seria tão bom se trailers fossem pensados para guardar surpresas…)

Para Sempre Medo traz Liz, uma mulher que viaja com o namorado para uma cabana isolada no meio do mato. Ele precisa se ausentar, e ela começa a desconfiar dele. Só que as coisas escalam de uma maneira bem rápida. E existe um grande segredo escondido.

Para Sempre Medo é um filme curto, com uma história meio simples, mas Oz Perkins sabe criar um clima tenso. Além disso, algumas cenas são muito bem filmadas, Oz Perkins sabe posicionar sua câmera – gostei de um momento onde Liz está numa banheira, e o fundo aos poucos se transforma num rio. E curti a parte que entra no sobrenatural, fiquei curioso pra saber se é uma mitologia que já existe ou se foi algo inventado pelo roteirista.

O elenco é reduzido, mas funciona bem para o que o filme pede. Tatiana Maslany e Rossif Sutherland fazem o casal principal; Birkett Turton e Eden Weiss aparecem menos, como o irmão e sua namorada. Aliás, uma curiosidade sobre “nepobabies”: o diretor Oz Perkins é filho de Anthony Perkins; Rossif Sutherland é filho do Donald Sutherland, meio irmão do Kiefer Sutherland.

Para Sempre Medo não chega a ser ruim, até gostei do que vi. Mas é um filme inferior aos dois anteriores. Vamos torcer pro Oz Perkins dar uma respirada antes do próximo projeto, afinal, sempre preferimos qualidade do que quantidade.

A Noiva!

Crítica – A Noiva!

Sinopse (imdb): Na Chicago dos anos 30, Frankenstein pede ajuda ao Dr. Euphronius para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada como a Noiva, provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.

Ano passado, a gente viu Frankenstein; este ano tem A Noiva de Frankenstein. Podia até ser uma continuação, mas uma produção não tem nada a ver com a outra.

A Noiva! (The Bride!, no original) é o novo filme escrito e dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal. Se seu primeiro filme como diretora, A Filha Perfeita, de 2021, era um projeto mais “simples”, baseado mais nas atuações das atrizes principais, aqui em A Noiva! ela resolve ousar e entrega uma produção de época, com cenários e maquiagens elaborados, e várias citações a outros filmes. Ela arriscou, e deu certo – o resultado ficou bem melhor que o seu primeiro e insosso filme.

(Gostei deste A Noiva!, mas, pelo meu gosto, na inevitável comparação, o Frankenstein do Guillermo Del Toro teve um resultado melhor…)

A criatura, aqui chamada de Frankenstein, procura uma médica que estudou as práticas do dr. Frankenstein, e pede uma companheira. Eles conseguem trazer de volta à vida um cadáver de uma mulher que acabou de morrer, que passa a viver uma louca aventura ao lado dele.

(A criatura aqui é chamada de “Frankenstein”, que na verdade seria o sobrenome do médico. É um erro, mas, deixemos assim.)

Se a criatura do Frankenstein é composta por diferentes pedaços de corpos costurados, parece que Maggie Gyllenhaal quis fazer algo parecido no seu filme. Tem desde Coringa 2 (quando começa uma rebelião de mulheres inspirada pela atitude da protagonista) até Bonnie & Clyde (o casal em fuga de carro pelo campo). Mas, na minha humilde opinião, a melhor citação foi ao Jovem Frankenstein, na melhor cena do filme, ao som de Puting on the Ritz.

Se por um lado essa mistura fica legal de se assistir, por outro lado o roteiro parece meio mal construído de vez em quando. Por exemplo, a personagem da médica some em determinado momento do filme. E a dupla de policiais não tem muita função na trama – aquele comentário de sempre: tire os policiais e o filme não perde nada.

Tecnicamente falando, o filme é muito bom. A maquiagem da criatura Frankenstein lembra a maquiagem clássica (diferente da recente versão do Del Toro, que tinha o rosto costurado). A Noiva! também traz algumas cenas bem violentas – aquela da cabeça sendo esmagada pela bota vai impressionar parte dos espectadores.

O elenco é bom, a diretora tem um grande currículo como atriz, então deve ser bem relacionada. Jessie Buckley e Christian Bale estão ótimos como o casal principal (ambos já tinham trabalhado com Maggie – Jessie estava no elenco de A Filha Perdida; Bale foi companheiro de cena em Batman O Cavaleiro das Trevas). Annette Bening também está bem como a médica, e Jake Gyllenhaal (irmão da diretora) faz uma espécie de Fred Astaire (um ator que canta, dança e sapateia). Se tem espaço pro irmão, também tem pro marido, Peter Sarsgaard, que faz uma dupla de policiais com Penélope Cruz.

Por fim, queria deixar um elogio à narrativa apresentada pela roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal. Seu filme é assumidamente feminista, em vários aspectos. Mas em nenhum momento vemos uma tentativa de lacração. Nada soa forçado. Parabéns, é assim que se faz!

Missão Refúgio

Crítica – Missão Refúgio

Sinopse (imdb): Um homem solitário em uma remota ilha escocesa resgata uma garota do mar, desencadeando uma sequência perigosa de eventos que culminam em um ataque à sua casa, forçando-o a enfrentar sua história conturbada.

Filme genérico do Jason Statham. Dá pra esperar alguma coisa além de apenas um “ok”?

Em Missão Refúgio (Shelter, no original), Mason vive recluso num velho farol em ruínas. Um marinheiro e sua filha adolescente trazem mantimentos para ele. Acontece um acidente com o barco e Mason passa a cuidar da menina. Até que uma câmera de segurança o reconhece e começam a caçá-lo. Claro que ele vai fugir e levar a menina. E claro que ele é o homem mais perigoso e mais mortal do país.

A direção é de Ric Roman Waugh, que se bobear ainda está em cartaz com seu último filme, Destruição Final 2 (dois filmes no início do ano!). Missão Refúgio é coerente com sua filmografia. Tudo é extremamente previsível. Todos os clichês estão presentes. Mas… Quem vai assistir um filme desses não está procurando roteiros elaborados. O lance é ser competente nas cenas de ação. E aqui temos tiroteios, lutas e perseguições de carro. Nada que salte aos olhos, mas pelo menos são cenas bem feitas.

No elenco, este é um “filme do Jason Statham”. Ele nunca foi um grande ator, mas pelo menos convence nas cenas de ação (segundo o imdb, ele fez quase todas as cenas sem dublê!), e tem carisma o suficiente pra segurar a atenção do espectador. Bodhi Rae Breathnach (Hamnet) faz a adolescente, mas preciso dizer que não gostei da atuação dela, ela faz cara de choro quase o filme inteiro. Bill Nighy sempre está bem, mas aqui parece estar no piloto automático. Também no elenco, Naomi Ackie e Bryan Vigier.

Missão Refúgio até vai distrair o espectador que vai conferir no cinema. Mas vai ser esquecido logo logo. O prazo de validade é “até o próximo filme do Jason Statham”, o que deve durar menos de um ano.

Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Crítica – Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Sinopse (imdb): A noiva deve matar seu ex-patrão e amante Bill, que a traiu no ensaio de casamento, atirou na cabeça e levou sua filha por nascer. Mas primeiro, ela deve fazer sofrer os outros quatro membros do Esquadrão da Morte.

Vai estrear no cinema uma “nova versão” de Kill Bill. Mas, é nova de verdade?

Tive sentimentos opostos depois que acabou a sessão. Por um lado, é sempre bom ver Tarantino no cinema, e como seu último filme foi só em 2019, estava rolando uma certa “abstinência”… Mas por outro lado, tem muito pouca novidade. Basicamente, vemos o primeiro filme, aí tem um intervalo de 15 minutos, depois o segundo filme, aí são créditos estendidos, pra só lá no fim de tudo, uma sequência inédita em animação.

Um breve comentário sobre Kill Bill. É uma saga de uma mulher que quer se vingar de cinco ex companheiros que a deixaram para morrer. E é um filme para fãs de Tarantino. O filme é cheio de exageros estilísticos – além de várias lutas com muito sangue jorrando, rolam cenas em preto e branco, coreografia em contra luz, planos-sequência com a câmera passeando pelo cenário sem cortes à la Brian de Palma – tem espaço até uma sequência em desenho animado! Tarantino aqui confirma a sua vocação de liquidificador de cultura pop e faz inúmeras citações. Faroeste italiano, filme de artes marciais, anime, trash, blaxploitation, seriados antigos, tudo isso fica consonante com as suas características habituais: diálogos afiados, edição fora da ordem cronológica e trilha sonora “cool”.

Agora, vou entrar num assunto polêmico. A divulgação deste novo lançamento diz que esta é a versão que o próprio Tarantino queria fazer na época, mas o estúdio o forçou a dividir em dois filmes. Mas, pra mim, isso é marketing. Porque sempre interpretei Kill Bill como dois filmes diferentes. Calma que vou explicar meu ponto de vista. Tarantino, ao longo de sua carreira, de vez em quando aponta seus filmes para uma direção para logo depois mudar, surpreendendo o espectador. Ele cria uma expectativa, para depois frustrá-la. Esse é um dos motivos que me fazem gostar dos filmes dele: são filmes fora do óbvio. Um exemplo: em Pulp Fiction, a gente acha que o protagonista é o John Travolta, mas seu personagem morre de repente no meio do filme. Outro exemplo ainda mais explícito: em Oito Odiados, de repente o espectador descobre que tem um personagem escondido no subsolo da casa. É um ator famoso, não é um figurante sem importância. A gente vê aquilo e pensa que o filme tomará outro rumo com a entrada do novo personagem – mas este morre logo, e o filme não muda de rumo. Isso sem contar com Bastardos Inglórios, que altera fatos históricos, matando Hitler num incêndio. Analisando sob este ponto de vista, Tarantino encerrou Kill Bill vol 1 com uma longa e sangrenta batalha entre a Noiva e os Crazy 88. Um final bastante catártico. Aí quando vemos o vol 2, e sabemos que a Noiva vai finalmente enfrentar o Bill, vemos uma luta muito mais contida, usando um elemento citado despretensiosamente no meio do filme. Cadê a luta catártica? Não tem. Mais uma vez, Tarantino frustrou a expectativa criada por ele mesmo. Ou seja, pra mim, sempre foram dois filmes separados.

Agora, falemos sobre esta “nova versão”. A animação inédita traz Aki, uma nova personagem que quer matar a Noiva. Se entendi direito a irmã da Gogo Yubari. Tiro porrada e bomba num desenho curtinho de 8 minutos. Divertido, mas não justifica uma ida ao cinema só por isso.

De resto, tem bem pouca coisa de novidade. O anime mostrando a infância da O-Ren Ishii é um pouco maior, tem uma sequência a mais. Durante a luta contra os Crazy 88, antes tinha uma sequência em P&B, agora é tudo colorido (decisão que achei ruim, era legal de repente tudo ficar P&B, era mais uma surpresa no filme). E acho que trocaram algumas músicas na trilha sonora. Se teve mais alterações além dessas, não reparei – e olha que revi os dois Kill Bill não faz muito tempo. Ou seja, pelas alterações, não vale ver essa nova versão.

(Lembro de quando a trilogia clássica de Star Wars foi relançada nos cinemas em 1997. Eram filmes que heu já tinha visto diversas vezes. E realmente teve novidades – algumas ruins, como o Greedo atirando antes; outras boas, como janelas com paisagens na cidade das nuvens em Bespin. Aliás, a maioria das alterações foi boa. Naquela ocasião, nenhum fã saiu frustrado do cinema por ter visto um filme igual ao anterior!)

Gostei de ter visto Kill Bill: The Whole Bloody Affair. Mas gostei porque Tarantino no cinema é sempre legal. Mas queria ter visto mais material diferente, a divulgação engana o espectador.

Fique até o fim dos créditos!

EPiC: Elvis Presley in Concert

Crítica – EPiC: Elvis Presley in Concert

Sinopse (filmeb): Elvis canta e conta a sua história como nunca se viu antes em uma experiência cinematográfica dirigida pelo visionário cineasta Baz Lurhmann.

No Podcrastinadores de expectativas para 2026, o Pedro Guedes, do canal Depois do Cinema, me sugeriu esse documentário. Não sou muito fã do gênero, mas fui ao cinema ver qualé.

EPiC: Elvis Presley in Concert (idem, no original) foi dirigido por Baz Luhrman. Durante as pesquisas sobre o filme Elvis, provavelmente ele deve ter encontrado muita coisa sobre o cantor, então deve ter separado esse material de arquivo que servia pra um documentário longa metragem.

Minha maior curiosidade era saber como seria um documentário feito pelo Baz Luhrman, que é famoso pelo visual espalhafatoso dos seus filmes. Mas se ele está usando material de arquivo, fica mais restrito na hora de fazer suas extravagâncias. Acho que aqui isso só acontece bem no início, quando vemos algumas colagens de imagens em velocidade acelerada – se o filme fosse todo naquele ritmo, ia ser difícil de acompanhar.

Mas acabou que o problema foi outro. EPiC fala um pouco sobre a carreira hollywoodiana do Elvis e mostra algumas rápidas imagens de shows antigos. Mas quase todo o filme é em cima da fase Las Vegas do cantor. Digo mais: só o início dessa fase, antes do Elvis engordar.

Talvez seja head canon da minha parte, mas, se vou ver um documentário sobre um cantor que começou a carreira em 1954, vou querer ver informações sobre essa época, assim como os anos seguintes. Por exemplo, toda a fase da Sun Records foi deixada de fora. Quase todo o filme foca apenas em 1969.

Além disso, quem viu o filme do mesmo diretor sabe das controvérsias ligadas ao empresário Coronel Tom Parker. Se Luhrman dedica boa parte do seu filme anterior ao Coronel, por que o deixa de lado aqui? Até vemos o Coronel, mas rapidinho. E com zero polêmica. O filme também fala pouco do relacionamento com Priscilla Presley.

Dito isso, preciso reconhecer que o material de Las Vegas apresentado no filme é muito muito bom. São vários momentos de ensaios e de shows. Além disso, a qualidade da imagem é excelente. Vemos Elvis de perto, conversando, cantando e fazendo piadas.

Alguns detalhes da edição ficaram bem legais. A música Polk Salad Annie alterna imagens do ensaio só com a banda, ensaio com o coro, e a apresentação no palco, com público. Detalhe: o áudio da música continua como se fosse uma única gravação, enquanto alternam as imagens. Achei esse o melhor momento do filme.

No fim, fica a vontade de ver o show de Las Vegas. Se existem aquelas imagens com aquela qualidade, deve ter o show inteiro em algum lugar. Acho que seria bem mais legal ver o show de Las Vegas completo do que um documentário que diz que vai falar sobre o Elvis mas fala muito pouco sobre o resto da sua rica carreira.

No fim, até vale. Quem curte música vai gostar, quem curte Elvis Presley vai gostar ainda mais. Mas poderia ser bem melhor, ah, poderia…

Pânico 7

Crítica – Pânico 7

Sinopse (imdb): Quando um novo Ghostface surge na pacata cidade onde Sidney Prescott reconstruiu sua vida, seus medos mais sombrios se tornam reais enquanto sua filha se torna o próximo alvo do assassino.

Precisava de mais um Pânico? Claro que não. Mas dá bilheteria, né?

Houve turbulências durante a produção do filme, mas não sei de detalhes. O que sei é que Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, diretores de Pânico 5 (2022) e 6 (2023), optaram por não fazer o sétimo filme, então o roteirista Kevin Williamson sugeriu seu amigo Christopher Landon como um substituto adequado – mas Landon também saiu fora. Williamson tinha convencido Neve Campbell a voltar para a franquia, então Neve convenceu Williamson a assumir a direção.

Kevin Williamson tem um bom currículo como roteirista (Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Prova Final), mas, como diretor, só tinha dirigido um único filme, Tentação Fatal, que não é lá grandes coisas. Agora, em seu segundo filme como diretor, parece que Williamson seguiu um caminho “seguro”. A estrutura do sétimo filme é bem parecida com a dos filmes anteriores – como, por exemplo, começar com um prólogo com personagens que não estarão no resto do filme.

Aliás, aqui também tem uma sequência que fala de metalinguagem, coisa que acontece desde o reboot de 2022. Naquele filme tem uma cena que fala sobre o conceito de requel, mistura de reboot com sequel. No filme de 2023 falam sobre clichês de franquias. Agora a cena fala de nostalgia, de usar elementos dos filmes clássicos nos novos filmes. Boa sacada.

Por outro lado, tudo é muito previsível e cheio de conveniências de roteiro – por exemplo, se a Sidney precisa ir até a filha, que está longe, e não consegue abrir o carro, ia voltar e pedir carona em vez de andar. Ou a entrada triunfal da Gale, no timing exato. Mas pelo menos algumas sequências são boas, como aquela da garagem com os plásticos pendurados. E teve um jump scare que me pegou!

No elenco, o grande lance aqui é a volta de Neve Campbell, que não estava no filme anterior. Aqui ela é a protagonista, Courtney Cox aparece como coadjuvante. Existe todo um elenco novo, de pessoas desconhecidas, mas queria citar um nome, bem secundário para este filme: McKenna Grace. Assim como em Five Nights at Freddy’s 2, ano passado, ela tem um papel bem pequeno aqui. McKenna parece estar querendo se firmar como um nome importante no cinema fantástico, afinal, ela também estava em Ghostbusters, Maligno, Anabelle 3, Amityville O Despertar e, claro, A Maldição da Residência Hill. Belo currículo, e ela ainda tem 19 anos!

Pânico 7 fala sobre deep fake. Não vou entrar em detalhes por causa de spoilers, mas foi uma boa ideia usar um tema bem atual. Só achei que forçaram um pouco na sequência final, porque mostra vários personagens de outros filmes, e não sei se quem criou os deep fakes não teria como saber aqueles rostos todos. Mas foi uma bela homenagem a outros atores que passaram pela franquia.

Por fim, queria reclamar dos títulos dos filmes pós Wes Craven (diretor dos primeiros, já falecido). Pânico 5 foi lançado como “Pânico”, sem número, mesmo nome do filme de 1996 – o que não faz o menor sentido, são dois filmes com títulos iguais. O sexto filme usou algarismos romanos, “Pânico VI”. E agora voltou ao algarismo arábico, “Pânico 7”. Caramba, por que não padronizar???

Pânico 7 tem uma breve cena no meio dos créditos, e estreia hoje no circuito.

O Morro dos Ventos Uivantes

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes

Sinopse (imdb): Uma história de amor apaixonada e tumultuada que tem como pano de fundo os pântanos de Yorkshire, explorando o relacionamento intenso e destrutivo entre Heathcliff e Catherine Earnshaw.

Antes de tudo, preciso falar que nunca li o livro. Foram algumas diferentes versões cinematográficas, vi a de 1992, com Juliette Binoche e Ralph Fiennes, mas vi na época e nunca revi, então não lembrava de nada da história. Como de costume aqui no heuvi, os comentários serão sobre o filme, e não sobre o livro que deu origem.

Só queria fazer um breve comentário, porque ouvi gente reclamando que a escolha do Jacob Elordi seria errada, porque no livro o Heathcliff não é branco. Ora, na versão de 92, Heathcliff era o Ralph Fiennes. Essa reclamação está atrasada, não?

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, no original) é o terceiro filme de Emerald Fennell, que tirou onda ganhando Oscar de melhor roteiro original (além de indicações para filme e diretora) por seu filme de estreia, Bela Vingança, de 2020. Em 2023 ela fez Saltburn, bom filme, mas não tão bom quanto Bela Vingança. E agora chega seu terceiro filme, bem mais fraco que os dois anteriores…

(Detalhe: o título do filme, no poster, está entre aspas. É um meio discreto que Emerald Fennell usou para avisar “galera, este filme não é exatamente a mesma história, é a minha versão, ok?”)

O Morro dos Ventos Uivantes não é bom. Não é um lixo, mas tem muito mais problemas que virtudes. Duas coisas me incomodaram muito, uma sobre a história, a outra do filme em si. Vamos por partes.

Sobre a história, não sei vocês, mas heu tô de saco cheio com gente que alimenta problemas desnecessários. Ele gosta dela, ela gosta dele, mas ninguém fala nada e eles não ficam juntos. Isso não é um problema exclusivo desse livro/filme, isso tem de monte por aí, inclusive na vida real. Galera, qual é a dificuldade de você verbalizar o que você sente por alguém? Pra que problematizar algo que não é um problema? Aí, no filme, vemos Heathcliff decepcionado com algo que ele ouviu – mas não confirmou – e vai embora. E volta anos depois, dizendo que sempre amou Cathy. Cara, se você a ama, por que foi embora? Você se ausentou, “a fila andou”. Agora não reclame! E ela também fica fazendo jogo duro – pra que??? Sei lá, esse tipo de problema me enche o saco.

Agora, sobre o filme, o problema é que é chato e arrastado. São duas horas e quinze, e aquela história poderia facilmente ser contada em uma hora e meia. É impossível passar pela reta final do filme, repetindo a mesma coisa várias vezes, sem ficar olhando pro relógio.

Além disso, O Morro dos Ventos Uivantes tem algumas coisas meio estranhas. O figurino usa umas roupas que parecem de plástico, talvez celofane. Qual é o sentido de usar um tecido que não parece compatível com a época que o filme se passa? Faço o mesmo comentário sobre alguns momentos musicais usando Charlie XCX, umas músicas que não têm nada a ver com o clima do filme, parecia um videoclipe.

Um amigo comentou que O Morro dos Ventos Uivantes era pra ser um romance gótico, mas virou um thriller erótico. Mas, olhando pelo lado erótico, achei bem fraco. O filme tem zero nudez, e pouquíssimas cenas de sexo. Ok, algumas cenas sugerem erotismo em situações do dia a dia, como por exemplo alguém sovando massa de pão na mesa. Mas na minha humilde opinião é tudo muito discreto pra ser chamado de thriller erótico.

Nem tudo é ruim. A fotografia é muito boa – talvez o único elogio que faço sem nenhuma ressalva. Várias cenas são belíssimas, daquelas que dá vontade de pausar e colocar num quadro. Também gostei das cenas que envolvem Heathcliff e Isabella, uma relação bem tóxica, mas que foi bem escrita e bem filmada.

No elenco, Margot Robbie e Jacob Elordi servem para o que o filme propõe: um casal bonito e carismático. Não precisa de grandes atuações, a ideia é que eles façam o básico. A melhor do elenco é Alison Oliver, que faz Isabella, é um personagem bem mais interessante que o casal principal. E achei legal ver Owen Cooper, o garoto de Adolescência, em seu primeiro papel para o cinema. Também no elenco, Hong Chau, Shazad Latif e Martin Clunes.

O Morro dos Ventos Uivantes está em cartaz, e aparentemente não está agradando. Espero que Emerald Fennell tenha melhor sorte no seu quarto filme.

Extermínio: O Templo dos Ossos

Crítica – Extermínio: O Templo dos Ossos

Sinopse (filmeB): Dr. Kelson se vê envolvido num novo relacionamento chocante – com consequências que podem mudar o mundo como eles o conhecem – e o encontro de Spike com Jimmy Crystal se torna um pesadelo do qual ele não consegue escapar.

Perdi a sessão de imprensa de Extermínio O Templo dos Ossos, ou Extermínio 4 (mais fácil, né?). Não foi porque achei o Extermínio 3 ruim, na verdade heu tinha outro compromisso no dia. Perdi o “bonde do hype”, mas vou comentar, mesmo atrasado.

Mas antes queria fazer um último comentário sobre o Extermínio 3. Meu maior problema com o filme foi que não consegui “comprar a ideia”. O terceiro filme era pra ter sido “28 Meses Depois”, continuando a proposta do título original, que se baseia na linha do tempo (28 dias – 28 semanas – 28 meses). Mas resolveram mudar pra “28 Anos Depois”. Galera, 28 anos é muito tempo. Em primeiro lugar, não teriam mais infectados – no segundo filme são poucos, porque a maioria morreu de fome. Além disso, ia ter gente querendo voltar pra Inglaterra. A infecção se espalhava muito rápido, imagina quantos ingleses não estariam viajando, fora da Inglaterra, quando estourou a infecção? Eles iam querer voltar pra casa! Fazer o filme 28 anos depois da infecção me pedia uma suspensão de descrença que não consegui aceitar.

Mas, isso é problema meu, não do filme. Se vejo um filme de super heróis, preciso acreditar que o cara tem super poderes. Um dia vou rever Extermínio 3 e talvez tenha uma segunda opinião.

Enfim, vamos ao Extermínio 4. Este é o segundo de uma trilogia no universo dos dois primeiros filmes. Extermínio 3, o terceiro filme, mas primeiro da nova trilogia, terminava com uma cena “Power Rangers”, mostrando um grupo que lutava fazendo coreografias e usando roupas coloridas (aliás, essa cena me fez gostar ainda menos do filme). O quarto filme começa a partir daí: a entrada do garoto Spike nesse problemático grupo. Paralelo a isso, vemos o dr. Kelson estreitando o relacionamento com o infectado Samson, e fazendo experimentos com remédios.

A direção é de Nia da Costa, que não tem um bom currículo (ela fez o Candyman novo, que é meio fuén, e As Marvels, que é ainda pior). Mas ela manda bem aqui. Em algumas partes ela emula o ritmo frenético usado pelo Danny Boyle nos outros filmes, mas em outros trechos temos mais foco nos personagens e seus objetivos. Além disso, ela usa a música como em nenhum dos outros três filmes foi usada (já retorno a esse ponto).

O elenco está muito bem. O filme se divide bem entre os três principais nomes. Alfie Williams, que era o verdadeiro protagonista do filme anterior, aqui está ok como um garoto que acidentalmente caiu numa roubada e precisa dar um jeito de escapar. Jack O’Connel está ótimo como o alucinado e megalomaníaco líder dos Jimmies, um cara que cresceu e viveu a vida toda sem limites morais e éticos, e agora vive essa rotina louca, misturando poder e religião. E Ralph Fiennes está excelente como o velho médico, sobrevivente, cansado da vida, que se arrisca pra tentar mudar o que está em volta. E ele ouvindo e dançando Iron Maiden é sensacional! Ainda no elenco, Erin Kallyman (de Han Solo) e Chi Lewis-Parry, o infectado alfa.

Sobre a música: descobrimos que o dr. Kelson tem um toca discos. São três momentos dele ouvindo e interagindo com músicas do Duran Duran. Mas a melhor cena é quando ele usa Iron Maiden. Tem uma longa sequência na parte final, ao som de “The Number of the Beast”, que é muito boa, talvez a melhor cena do filme. Só essa sequência já vale o ingresso! Ah, o filme termina com a arrepiante “In the House, in a Heartbeat”, que foi tema do primeiro filme, lá de 2002.

Por outro lado, Extermínio 4 sofre por ser o filme do meio de uma trilogia anunciada. O filme não tem início, quem não viu o 3 vai ficar perdido. E também não tem fim, o filme termina com dois ganchos para o próximo filme. Um deles é bem legal, pra quem acompanha a franquia desde o primeiro filme. Mas, precisa deixar tudo em aberto? Bem ruim isso.

Gostei de Extermínio 4. Depois de ver, tenho até mais boa vontade com o terceiro filme. Quem sabe quando sair Extermínio 5 não faço uma sessão tripla pra ver a trilogia inteira?