O Sorveteiro

Crítica – O Sorveteiro

Sinopse (imdb): Uma idílica cidadezinha de verão mergulha na loucura quando um vendedor de sorvete serve às crianças guloseimas que trazem resultados aterrorizantes.

Filme novo do Eli Roth, com o pé fincado fortemente no terror trash! É bom? Não. Mas, se você gosta de gore exagerado, vai se divertir.

Em um bairro pacato, muitas crianças brincam na praça. Chega um sorveteiro, e quase todas as crianças vão tomar sorvete. De noite, essas crianças parecem enfeitiçadas e atacam seus pais.

Crianças “do mal” não são uma novidade no cinema. E o lance das crianças enfeitiçadas lembra A Hora do Mal. E um vilão mudo que se comunica por expressões faciais lembra Terrifier. Sim, O Sorveteiro parece uma colagem de ideias. Isso às vezes funciona, mas nem sempre.

A direção é de Eli Roth, nome que tem alguns filmes interessantes no currículo (Cabana do Inferno, O Albergue, Feriado Sangrento) outros nem tanto (seu último filme, Borderlands, foi bem fraco). O Sorveteiro é o primeiro filme da produtora The Horror Section, fundada por Roth, para fazer filmes com uma proposta de fazer filmes de terror perturbadores.

(Roth estava no elenco de Bastardos Inglórios, mas era só como ator, não dá pra colocar na mesma lista de filmes.)

O melhor de O Sorveteiro são as cenas de mortes. O gore é muito exagerado, e quase sempre com efeitos práticos e de maquiagem. Heu ri alto em várias das mortes! Sim, o gore exagerado faz o filme virar uma comédia em boa parte da projeção.

(Por outro lado, achei caricato demais a maquiagem das crianças com a boca suja de sorvete. Ficou tosco.)

O roteiro tem as suas forçações de barra. Uma coisa que me incomodou foi o sorvete ter efeitos diferentes pra pessoas diferentes. Por que a menina um pouco mais velha não foi hipnotizada? E se o sorvete não faz efeito para adolescentes mais velhos, ou jovens adultos, cadê o resto dessa faixa etária pela cidade? Uma cidade tem dezenas de crianças, mas só três jovens adultos?

O terço final traz aquela tradicional cena de explicação, onde um novo personagem gasta um tempo explicando detalhes que nem sempre são necessários. Ok, entendo que queriam dar um contexto, mas a cena não ficou boa. Pelo menos posso dizer que gostei da reviravolta na sequência final. Nada muito inovador, mas um clichê bem utilizado. Só tem um problema: de repente o filme muda de tom, porque é um final muito mais sombrio do que a galhofa que permeia o resto do filme.

Existe uma polêmica ligada a um possível uso de inteligência artificial. Pelo que li, é no videozinho que passa no celular das crianças. Mas não consegui mais informações sobre esse caso, então não vou palpitar. Dito isso, queria falar mal dos efeitos especiais de uma cena em particular. O Sorveteiro usa muitos efeitos práticos, mas tem uma cena onde um personagem está em uma praça, em primeiro plano, e atrás dele várias crianças começam a se aglomerar. Quando as crianças partem para cima dele, é um cgi tosco demais. E o pior é que é um cgi desnecessário, porque a cena teria exatamente o mesmo impacto se apenas mostrasse as crianças correndo.

O elenco não é bom. Entendo que trabalhar com crianças não é algo muito fácil – principalmente se o orçamento é pequeno. E quase todo o filme é conduzido por atores infantis. Heu até gostei do principal, Charlie Zeltzer, que tem uma vibe parecida com aquele garoto de Umbrella Academy. Mas o resto é de sofrível pra baixo. Ah, o diretor Eli Roth interpreta o pai.

A história fecha, mas a última cena abre possibilidade de uma continuação, que deve acontecer se a bilheteria for boa. E no fim dos créditos rola uma cena extra com uma piadinha.

Resumindo: O Sorveteiro só vale pelo gore. Vai divertir quem curte trash.

A Última Casa

Crítica – A Última Casa

Sinopse (imdb): Uma família de quatro pessoas fica subitamente trancada dentro de casa, sem saída, e precisa unir forças para sobreviver tanto à escassez de recursos quanto à ameaça misteriosa e iminente que os mantém aprisionados.

Um pouco atrasado, vamos comentar o filme recente da Netflix que foi quase uma unanimidade: ideia boa, final ruim. E no fim do texto, vou comentar um grande furo de roteiro.

Um pescador chega em casa quando está começando a chover. Logo, ele e sua família descobrem que essa chuva lacrou todas as portas e janelas de todas as casas. Toda a vizinhança está presa, cada um na própria casa. Dias viram semanas, semanas viram meses, e recursos começam a acabar. Inicialmente a gente lembra da pandemia, todos fechados em casa – mas o roteiro traz um elemento misterioso e sobrenatural rondando lá fora.

(Não sei se esse conceito funcionaria aqui no Brasil. Aqui quase todo mundo tem janelas abertas em casa, principalmente na área de serviço. Como seria essa lacração numa janela aberta?)

O grande lance aqui é que A Última Casa é estrelado por Wagner Moura. Filme gringo, em inglês, e o “nosso” Wagner Moura tá lá, ao lado da Grace Park (Vidas Passadas), liderando a narrativa. Legal ver um brasileiro com uma carreira cada vez mais sólida em Hollywood.

A direção é de Louis Leterrier, que tem um currículo curioso. Ele fez aquele Incrível Hulk do início do MCU, com o Edward Norton; fez o primeiro Truque de Mestre; mas é mais lembrado por ter feito o último Velozes e Furiosos. Por que chamar um diretor com esse histórico pra um filme que se passa quase todo dentro de casa acompanhando uma família? Sei lá. Acho que podiam ter escolhido um diretor mais a ver com a proposta.

Tem uma coisa que incomoda um pouco. A família é muito “MacGyver”. O pai é pescador, caçador, mecânico e inventor, e tem absolutamente TUDO na garagem. Já a mãe cria plantações dentro de casa, pra não faltar comida. Ok, se todas as outras famílias em volta não conseguiram sobreviver, de repente tem uma que é mais “ninja” e conseguiu. Mas, vou repetir o comentário que fiz no texto sobre Ponto Sem Retorno: é mais legal quando o protagonista tem algum defeito aqui ou ali. É chato ter protagonistas tão perfeitos.

A ideia inicial é até instigante, não sabemos o que está acontecendo, nem como a família vai sobreviver, nem o que são aquelas coisas lá fora. Mas o desenvolvimento não é bom, e quanto mais perto do final, menos interessante o filme fica. E como é uma família perfeita demais, duvido que alguém tenha chegado ao fim do filme torcendo por eles.

Ah, tem as criaturas. Achei ruins. Definitivamente poderiam desenvolver melhor. Acaba que é um vilão que não assusta.

Agora, preciso falar de um furo de roteiro. Antes, vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Se heu ficasse preso numa casa por mais de uma semana, ia pensar no esgoto. Afinal, a água entra pelo encanamento, então necessariamente existe uma tubulação de esgoto. Mas, isso sou heu, não quero que o personagem pense igual a mim.

Mas, depois de cinco anos, os personagens finalmente pensam nisso. Quebram o chão do banheiro e seguem para a casa do vizinho. Só tem um problema: como vão entrar pelo banheiro do vizinho se ninguém quebrou o chão lá? O roteiro simplesmente ignora isso, a personagem só entra na casa do vizinho e o filme segue.

Aproveitando que estou no “momento spoiler”, queria comentar uma coisa que não entendi. O filme abre com uma narração dizendo algo como “todos se lembram onde estavam quando a chuva começou”. Ao fim do filme, sobraram só os quatro personagens da família, mas a mesma narração volta e cita de novo “todos se lembram onde estavam quando a chuva começou”. Ué, essa frase faria mais sentido se houvesse mais personagens, fora do núcleo familiar.

FIM DOS SPOILERS!

A Última Casa tem uma história fechada, mas abre um gancho pra uma possível continuação, em outro ambiente. E, fica a dica pra Netflix: dá pra fazer um spin off, um filme completamente diferente mas no mesmo universo. Imaginem um grande prédio de apartamentos. As pessoas não vão poder sair pra rua, nas, dentro do prédio, iam poder circular entre os apartamentos. Então o filme poderia começar com um espírito colaborativo entre os vizinhos, mas quando os recursos começassem a escassear, começariam as brigas. Taí, poderia ser um filme legal.

Coyote vs Acme

Crítica – Coyote vs Acme

Sinopse (imdb): Uma história ambientada no depósito da ACME, a fabricante de tudo e mais um pouco usado pelos personagens dos Looney Tunes.

Finalmente estreou Coyote vs Acme! E desta vez, essa frase não contém nenhum exagero. Você conhece os bastidores por trás dessa produção?

Em uma troca de executivos nos estúdios de Hollywood, o produtor David Zaslav entrou na Warner e resolveu cancelar três projetos que já estavam em fase de finalização. Parece que ele ia obter vantagens fiscais se cancelasse as três produções, mas não entendo da parte de impostos o suficiente pra saber como jogar dinheiro e trabalho fora seria algo lucrativo. O fato é que ele simplesmente cancelou. Um era um desenho do Scooby Doo, que não sei se era só desenho ou misturava com live action, com Mckenna Grace, Ariana Greenblatt, Mark Hamill e Andre Braugher (em seu último papel, ele faleceu pouco depois) no elenco. Outro era o filme da Batgirl, dirigido pela dupla Adil El Arbi e Bilall Fallah (que depois fariam o último Bad Boys), e estrelado por J.K. Simmons, Michael Keaton e Brendan Fraser (disseram que este filme da Batgirl chegou a ser finalizado e fizeram uma “funeral session”, uma sessão única para elenco e equipe). O terceiro era este Coyote vs Acme, que foi finalizado, teve a funeral session em novembro de 2023, e depois engavetaram tudo.

A princípio, a gente nunca veria esse filme. Mas muita gente reclamou por aí, e acabaram vendendo os direitos de distribuição para uma tal de Ketchup Entertainment, empresa com muito pouca relevância no mercado (trabalhou em filmes como Hypnotic, do Robert Rodriguez, ou Ferrari, do Michael Mann). E a Ketchup lançou o filme, que estava aqui no heuvi na lista de expectativas para 2024! (Algo me diz que essa Ketchup vai ganhar muito dinheiro…)

E finalmente o filme chegou aos cinemas. Boa notícia, porque a ideia é genial: por décadas, Wile E. Coyote comprou produtos Acme, que sempre falharam. Ele vê uma propaganda sobre um escritório de advocacia que ganha dinheiro entrando com pequenos processos contra a Acme, e conseguindo pequenos acordos. Mas o Coyote acaba levando o escritório ao seu maior caso, um processo que pode mudar os rumos da poderosa empresa Acme.

(Detalhe curioso: o nome do escritório advocacia é Avery, Jones and Maltese, uma homenagem aos animadores da Warner Bros. Tex Avery, Chuck Jones e Michael Maltese.)

A direção é de Dave Green, que não tem um grande currículo, seu último longa foi aquele insosso As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras, de dez anos atrás. Coyote vs Acme segue a linha de Uma Cilada Para Roger Rabbit, estamos em um universo onde humanos e desenhos convivem em harmonia. E, tecnicamente falando, os efeitos são perfeitos. Se anos atrás existia uma dificuldade na interação entre atores humanos e objetos desenhados, aqui tudo parece muito natural.

Uma coisa bem legal aqui é que os personagens são os mesmos dos desenhos. Digo isso porque às vezes uma adaptação muda algo do traço (tipo criar uma versão 3D), ou da personalidade do personagem. Mas aqui felizmente isso não acontece. É o mesmo estilo de desenho, com as mesmas características no comportamento – nem o Coyote, nem o Papa Léguas falavam no desenho, também não falam aqui. E, claro, temos participações especiais de muitos personagens da galera Looney Tunes, como Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frajola, Piu Piu, Diabo da Tasmânia, etc.

Coyote vs Acme é MUITO engraçado. O mesmo estilo de humor absurdo dos desenhos, quem curtia vai se deliciar. Fico feliz de ver essas piadas no mundo politicamente correto dos dias de hoje, onde a música “Atirei o pau no gato” foi “cancelada”. Sim, o Coyote se arrebenta o tempo todo, e cada vez é mais engraçada que a anterior.

No elenco, o principal nome é Will Forte, o advogado que está quase o filme todo ao lado do Coyote. John Cena tem um papel menor como o advogado da Acme. Também no elenco, Lana Condor e Luis Guzmán.

Coyote vs Acme não tem cenas pós créditos. Mas no fim dos créditos tem a data de 2023, e um agradecimento: “A todos que publicaram, compartilharam, ergueram cartazes e se manifestaram nos momentos decisivos: este filme chegou às telas graças a vocês”. Se o Coyote ainda não conseguiu pegar o Papa Léguas, pelo menos o seu filme conseguiu chegar aos cinemas!

(Será que a gente pode sonhar com um lançamento tardio do filme da Batgirl?)

Ainda preciso falar sobre a dublagem. Reparei num erro feio da dublagem brasileira. A sessão de imprensa foi legendada, mas heu não pude ir, então esperei estrear, e no horário e local que heu podia, só tinha dublado. Ok, a dublagem brasileira costuma ser muito boa. E quase tudo merece elogio, menos um certo detalhe importante. Perto do fim do filme, aparece uma audiência em Washington, e o Hortelino é um dos senadores. Tem uma plaquinha na frente dele, com o nome Fudd – Hortelino no original é Elmer Fudd. Só que ele está falando normal. Ué, não é Hortelino “Troca Letras”? O Hortelino fala errado, que nem o Cebolinha! Erraram no texto da dublagem! Mas calma que piora. Determinado momento chamam o personagem de “senador Eufrazino”. Caramba, o Eufrazino é aquele do bigodão e barbão, ele aparece rapidinho no meio do filme. Erraram o nome e a característica do personagem!!!

Coyote vs Acme é bem divertido. Acho que o único problema é que a expectativa era muito alta, e heu estava esperando algo do nível de Tico e Teco e os Defensores da Lei, e não chega a tanto. Mas é um filme divertidíssimo!

Sobrenatural: Agora Entre Nós

Crítica – Sobrenatural: Agora Entre Nós

Sinopse (imdb): Gemma, uma jovem mãe que cria a filha na casa onde cresceu, descobre que consegue viajar para o Além, onde possui a habilidade de trazer o que lá habita para o mundo real.

Uma vez li em algum lugar a definição “terror de shopping”, que se referiria àqueles filmes genéricos de terror que passam nos multiplex, que divertem no momento mas logo depois são esquecidos – porque no mês seguinte tem um novo “terror de shopping” entrando no circuito. É uma pena ver que a franquia Sobrenatural virou “terror de shopping”.

Os dois primeiros Sobrenatural, dirigidos por James Wan, são muito bons. Depois disso Wan foi ganhar dinheiro fazendo outros estilos de filmes, mas o estúdio queria continuar vendendo ingressos. Então continuaram fazendo filmes, bobos e genéricos. Este Sobrenatural: Agora Entre Nós já é o sexto da franquia. E como são filmes baratos, e que proporcionalmente rendem uma boa bilheteria, já já deve vir o sétimo filme.

(Invocação do Mal é um caso semelhante: os dois primeiros foram dirigidos por James Wan e são ótimos filmes. Mas, somando continuações e spin offs, já são dez filmes na franquia. Quase todos esquecíveis.)

A direção e o roteiro de Sobrenatural: Agora Entre Nós são do desconhecido Jacob Chase (será que se heu mandar meus curtas pra Blumhouse, consigo fazer um dos próximos?). Chase não entrega um resultado muito ruim. Mas é tudo tão genérico que a gente pensa que deveria ter revisto os dois primeiros.

A melhor sequência de Sobrenatural: Agora Entre Nós é um plágio / homenagem a Backrooms, uma cena onde a personagem fica presa num labirinto num lugar “impossível”. O curioso é que Backrooms não é “terror de shopping”. Goste ou não, é um filme com identidade própria.

De resto, tudo é uma grande repetição. Um jump scare aqui, uma cena nojenta ali, nada que chame a atenção. Ok, dou um ponto pra maquiagem dos três acólitas, que são personagens intrigantes. Por outro lado, o policial que namora a protagonista parece ser um dos piores policiais da história do cinema…

O elenco traz Lin Shaye de volta ao papel de Elise – a única personagem presente em todos os seis filmes. De resto, ninguém relevante.

Sobrenatural: Agora Entre Nós já está em cartaz – não teve sessão de imprensa aqui no Rio, fui ver depois da estreia. Não sei se recomendo. Talvez seja melhor aguardar o “terror de shopping” do mês que vem.

Ponto sem Retorno

Crítica – Ponto sem Retorno

Sinopse (imdb): Em um mundo pós-apocalíptico, um vírus dizima a humanidade. Os sobreviventes enfrentam saqueadores errantes conhecidos como Ceifadores. O protagonista, Hig, um piloto, sobreviveu à gripe, mas perdeu a esposa.

Alguns diretores sempre estão no radar. Ridley Scott é um deles. Tanto que este filme estava aqui no heuvi, na lista de expectativas para 2026, lista feita em dezembro de 2025, época que ainda não tinha quase nenhuma informação sobre ele pela internet.

Em Ponto sem Retorno, estamos em um futuro próximo (acho que é 2035, em algum momento isso é dito durante o filme, mas não tenho certeza da data). Quase toda a população foi levada por um vírus. Hig é um sobrevivente que vive isolado, com o amigo Bangley, e usa um avião monomotor para procurar recursos e ajudar alguns raros vizinhos. E vive intrigado por uma mensagem que ouve no rádio sobre um oásis num local não muito perto.

Ridley Scott é um cara que tem um currículo excelente, e o fato dele estar com oitenta e oito anos e ainda filmar é impressionante. Mas infelizmente temos que reconhecer que nem todos os seus filmes são bons. Aliás, rolou uma piada no Podcrastinadores de Expectativas 2026 (também levei esse filme pra lá), que o Ridley Scott faria apenas um filme bom por década. Década passada foi Perdido em Marte; esta década foi O Último Duelo – ou seja, ele não teria mais nenhum filme bom por alguns anos. Ponto sem Retorno não é ruim, longe disso, mas está bem distante dos seus melhores títulos (quando o cara tem uma filmografia com filmes como Alien, Blade Runner, Gladiador, Thelma & Louise e Falcão Negro em Perigo, fica difícil manter o nível).

Ponto sem Retorno é bonito, é bem filmado, mas parece uma colagem de ideias que a gente já viu antes. Lembra Extermínio, Eu Sou a Lenda, Epidemia, tem até um momento Mad Max Estrada da Fúria. Pelo menos é bem conduzido – mesmo com a idade avançada, Ridley Scott ainda consegue manter um bom ritmo ao longo do filme. E tem uma grande cena de ação com o personagem do Josh Brolin que é realmente eletrizante.

Tem uma sequência que vai dividir opiniões, um trecho que destoa um pouco do clima do resto do filme. Heu gostei, mas prevejo que vai ter gente saindo das salas de cinema reclamando justamente dessa sequência.

Vou implicar com um detalhe, mas não é nada grave, é só implicância mesmo. É que o protagonista Hig é um cara muito perfeito. O cara pilota avião, conserta de tudo, tem mira perfeita, cuida de plantações, cozinha, e ainda por cima sabe se comunicar com sinais de libras! Caramba, bora colocar uns defeitos nesse cara! 😛

Outro problema que também não é grave. Tem um erro de continuidade meio feio. Determinado momento vemos um estouro de uma manada de búfalos, e vemos claramente que parte do avião é quebrada pelos búfalos. Logo depois o avião está intacto. Pô, galera, bora prestar atenção na continuidade!

Vou terminar meu “momento mimimi” com uma reclamação ainda menos importante. Determinado momento rola uma festa, e vemos músicos tocando. Benedict Wong pega um banjo (ou instrumento parecido), e aparentemente não está tocando, só fingindo. Logo depois Josh Brolin pega um violão e se junta ao grupo. Se tenho dúvidas sobre Wong, definitivamente Brolin não está tocando. A harmonia muda, e ele continua no mesmo acorde!

O elenco é bom. Jacob Elordi, apesar de certinho demais, tem carisma pra gente se importar com ele. Josh Brolin está ótimo como o parceiro mal humorado e desconfiado de tudo. Também no elenco, Margaret Qualley, Guy Pearce, Allison Janney e Benedict Wong.

Ponto sem Retorno não é um dos melhores trabalhos de Ridley Scott, mas quem for ao cinema não vai sair com raiva do que viu.

Insaciável

Crítica – Insaciável

Sinopse (imdb): Hana, uma estudante de medicina com o coração partido, passa a ser aterrorizada por uma força sinistra após aderir a uma moda obscura para perder peso: ingerir cinzas humanas.

O sucesso de A Substância abriu caminho pra outras produções de body horror. Poucos meses atrás tivemos Segredo Obscuro, agora é a vez de Insaciável (Saccharine, no original).

Desta vez o foco não é o etarismo, e sim a obsessão sobre a perda de peso. Hana está acima do peso, e uma amiga lhe oferece uma pílula milagrosa que faz perder peso rapidamente. Só que Hana descobre que a pílula é feita de cinzas humanas, e resolve fazer as próprias pílulas com partes de um cadáver da escola de medicina. Tudo corre bem até que começam a aparecer efeitos colaterais sobrenaturais.

O grande lance do body horror é chocar com imagens nojentas. Insaciável tem cenas grotescas tanto do cadáver usado na escola, quanto cenas mostrando comida sendo mastigada – provavelmente a diretora Natalie Erika James se inspirou na Coralie Fargeat, que mostra cenas repugnantes de homens comendo, seja chocolate em Vingança, seja camarão em A Substância.

Gostaria de fazer um elogio à maquiagem. A atriz Midori Francis realmente parece mais gordinha no início do filme. Agora, não posso fazer o mesmo elogio ao pai da personagem, que só aparece em uma cena, e está muito artificial.

Insaciável tem quase duas horas de duração, achei excessivo. E a parte final não é muito boa, tem algumas coisas que soam um pouco forçadas demais – não achei plausível a ideia da “auto cirurgia”.

No fim, é apenas mais um body horror, que será esquecido em breve.

Por Cima do Seu Cadáver

Crítica – Por Cima do Seu Cadáver

Sinopse (imdb): Um casal em crise se retira para uma cabana isolada para tentar salvar o relacionamento, mas ambos planejam secretamente assassinar o outro.

Quando soube de um filme da 87North estrelado por Samara Weaving e Jason Segel, fui catar logo pra ver.

É bom não saber muito sobre a trama, porque Por Cima do Seu Cadáver é daquele tipo de filme com alguns plot twists e alguns flashbacks bem colocados pra situar melhor a trama. O que o espectador precisa saber é que Lisa e Dan são um casal em crise, que está indo passar um fim de semana numa casa no lago, e um tem planos de matar o outro. E muita coisa vai acontecer ao longo desses planos.

Por Cima do Seu Cadáver é refilmagem do norueguês I Onde Dager, de 2021, dirigido por Tommy Wirkola (Noite Infeliz). Ainda não vi, mas descobri que está na Netflix com o título “The Trip”, entrou na minha fila!

Pra quem não se ligou no nome da produtora, a 87North é uma produtora fundada por dublês – ou seja, são realizadores que focam em cenas de ação e de efeitos práticos. O último filme deles que comentei aqui foi Lindas e Letais, que trazia várias cenas de luta bem coreografadas e bem filmadas. O foco aqui em Por Cima do Seu Cadáver não são as coreografias de lutas, e sim uma violência gráfica bem exagerada, com várias mortes e alguns desmembramentos aqui e ali. Mas apesar de muita violência, o clima continua bem humorado. Confesso que ri alto na primeira morte.

A direção é de Jorma Taccone, que tem um extenso trabalho no Saturday Night Live e é amigo de infância de Andy Samberg e Akiva Schaffer – daí a gente vê de onde vem o pé fincado fortemente na comédia. Este é seu terceiro longa como diretor.

O roteiro é bem estruturado com aqueles plot twists aqui e ali, mas preciso reconhecer que alguns são meio forçados. Felizmente nada que atrapalhe o desenrolar do filme.

O elenco está muito bem. Depois de dois Casamento Sangrento, Samara Weaving parece muito confortável em cenas de violência extrema e ao mesmo tempo bem humoradas. Jason Segel funciona bem ao lado dela. E gostei do over acting da Juliette Lewis. Também no elenco, Timothy Olyphant, Paul Guilfoyle e Keith Jardine

Por Cima do Seu Cadáver está no catálogo da Prime, mas ninguém está falando sobre ele. Pena…

O Fim da Rua

Crítica – O Fim da Rua

Sinopse (imdb): A família Platt se une para lidar com o novo ambiente depois que um evento cósmico transporta seu bairro suburbano para um lugar desconhecido.

No Podcrastinadores de Expectativas para 2026, citamos um filme que seria chamado Flowervale Street, que traria Ewan McGregor, Anne Hathaway – e dinossauros. O filme mudou de nome, para The End of Oak Street, e aqui no Brasil ganhou o nome de O Fim da Rua, e está estreando essa semana no circuito.

O Fim da Rua parece um filme de aventura / fantasia dos anos 80. Inclusive o filme se passa em 1982. Detalhe curioso: no início do filme não diz qual é o ano que a história se passa, a gente só descobre isso lá no fim do filme. Mas desde a primeira cena, onde tem uma festa numa rua com várias pessoas e nenhuma estava com o celular na mão, foi o momento onde descobri que era um filme que não se passava nos dias de hoje.

A direção é de David Robert Mitchell, que chamou a atenção alguns anos atrás quando fez A Corrente do Mal / It Follows. A Corrente do Mal é um filme que emula o estilo do John Carpenter. Aqui David Robert Mitchell emula o estilo do Steven Spielberg e de sua produtora Amblin. O Fim da Rua tem muito de E.T., de De Volta Para o Futuro, de Poltergeist – e, claro, Parque dos Dinossauros. Sim, heu sei, não é anos 80, mas é Spielberg, né?

David Robert Mitchell emula o estilo do Spielberg, mas ele não quer ser Spielberg. O Fim da Rua não é um filme de terror, mas tem alguns jumpscares – inclusive um deles me pegou. Também tem algumas cenas graficamente bem violentas, além de mostrar dinossauros em momentos íntimos, fazendo coisas que eu acho que o cinema nunca tinha mostrado antes (se é que você entende o que eu estou falando).

Os efeitos especiais são bons, mas não sei se isso merece um elogio tão grande, se a gente lembrar que Primitive War fez um ótimo trabalho de efeitos de dinossauros com “troco de pinga”. E se a gente lembrar que Primitive War tinha Ryan Kwanten e Tricia Helfer enquanto O Fim da Rua tem Ewan McGregor e Anne Hathaway, o orçamento aqui deve ser bem maior (mas por outro lado, o último Jurassic World, com orçamento ainda maior, decepcionou…).

No elenco, esse é daquele estilo de filme que não tem espaço pra grandes atuações. Dito isso, Ewan McGregor e Anne Hathaway estão bem. O elenco jovem, Maisy Stella, Convery Christian e Alexa Davis, também está ok. Ah, a trilha sonora de Michael Giacchino é muito boa!

Por fim, sem spoilers, mas gostei de não terem explicado qual foi o motivo do que aconteceu. Certamente ia ser uma explicação ruim. Melhor deixar no “não sei, só sei que foi assim”.

O Fim da Rua tem uma história fechada, mas se a bilheteria for boa, tem espaço pra uma continuação. Seria o que os fãs de Jurassic Park queriam e nunca aconteceu…

O Convite

Crítica – O Convite

Sinopse (imdb): O casamento de Joe e Angela está por um fio. Quando eles convidam seus enigmáticos vizinhos do andar de cima para um jantar, a noite toma rumos inesperados.

O Convite (The Invite, no original) é a refilmagem do espanhol Sentimental, de 2020, escrita e dirigida por Cesc Gay. Segundo a wikipedia, já houve versões produzidas na Itália, Suíça, França e Coreia do Sul. Heu nunca tinha ouvido falar, mas deu até vontade de ver o original espanhol (um conhecido meu viu e disse que esta versão americana é melhor).

O Convite se assemelha ao formato de teatro filmado. Tem uma introduçãozinha que nem é muito importante e logo depois todo filme se passa dentro de um apartamento, com apenas quatro atores, durante uma única noite – ou seja, dava para fazer isso num palco. Felizmente, a diretora Olivia Wilde teve boas sacadas de posicionamentos de câmera e o filme não fica com cara de peça de teatro.

O roteiro é escrito por Rashida Jones e Will McCormack (Cesc Gay está creditado também, pelo roteiro original). Heu não saberia dizer se o roteiro original tem todas as sacadas que acontecem aqui nesse, mas reconheço que esse roteiro é muito bem estruturado e muito bem escrito, com ótimos diálogos – além de trazer momentos muito engraçados. Detalhe que li no imdb: o monólogo do Hawk contando a história do seu nome foi escrito pelo ator Edward Norton; e a reação esculachada do personagem do Seth Rogen foi um improviso.

O roteiro é bom, mas heu diria que o melhor de O Convite são as as atuações dos quatro atores principais. Todos os quatro – Olivia Wilde, Penélope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton – estão muito bem. Até o Seth Rogen, que costuma fazer sempre o mesmo personagem, está bem aqui.

A direção é da atriz Olivia Wilde, este é seu terceiro longa, depois de Booksmart (que não vi) e Não Se Preocupe Querida, que é um filme que heu gostei, mas muita gente não gosta. Mas com esse O Convite até agora não ouvi nenhuma crítica. Até quem não gostou de Não Se Preocupe Querida está elogiando o trabalho da diretora.

Tem um detalhe técnico que me incomodou um pouco: a trilha sonora às vezes está tão alta que atrapalha os diálogos, principalmente no início do filme. Entendo a proposta, sublinhar o desconforto, mas achei que ficou um pouco acima do que deveria.

O Convite estreou no circuito sem muito alarde, mas quando um filme “pequeno” agrada, continua em cartaz. Fui ver num cinema com quatro salas, as outras três estavam exibindo A Odisseia. Não sei se ainda está em cartaz, se estiver, recomendo!

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Crítica – Homem-Aranha: Um Novo Dia

Sinopse (imdb): Um Peter Parker esquecido vive sozinho como Homem-Aranha em tempo integral, até que uma pressão crescente desencadeia uma mudança perigosa e um novo e poderoso inimigo surge.

Sim, estou atrasado, afinal Homem-Aranha: Um Novo Dia já estreou, já tem um monte de vídeos comentando sobre o filme. Heu me atrasei porque passei uns dias fora, mas por um certo lado acho uma boa ter atrasado, porque quero comentar sobre o novo vilão e isso é um spoiler. Vou fazer um vídeo comentando o filme sem spoilers, depois coloco aviso de spoilers e comento sobre o vilão. Se você ainda não sabe quem é o vilão e quer descobrir na hora do filme, então pare o vídeo naquele momento. Vamulá?

Quando surge um filme novo da Marvel, logo duas perguntas vêm à mente. Uma delas é: será que a Marvel vai voltar a ser o que já foi um dia? E a outra é: o que a gente precisa conhecer do MCU antes de ver esse filme? Vou começar meus comentários com esses dois pontos.

Vamos logo à boa notícia. Homem-Aranha: Um Novo Dia é um bom filme – talvez seja o melhor dos quatro filmes do Homem-Aranha no MCU. Se isso significa que a Marvel vai voltar a ser o que já foi um dia, não sei, porque a gente não sabe o que vai acontecer no futuro. Mas posso dizer que, individualmente, este é um bom filme. Ninguém vai se arrepender de ir ao cinema.

Sobre o que a gente precisa conhecer do MCU antes de ver este filme. Dois personagens secundários aqui não são apresentados porque a Marvel supõe que você já deveria saber quem são. Um deles é a Yelena Belova, irmã da Natasha Romanoff, a nova Viúva Negra, que estava nos filmes Viúva Negra e Thunderbolts*, e também na série do Hawkeye. Outro é Frank Castle, o Justiceiro, do seriado homônimo. Outros vilões com importância menor, Scorpion e os ninjas do Tentáculo, também aparecem sem um contexto prévio, mas isso não atrapalha o desenvolvimento do filme.

Homem-Aranha: Um Novo Dia foi dirigido por Destin Daniel Cretton, o mesmo de Shang-Chi. Cretton fez um belo trabalho. São várias cenas de ação, todas bem filmadas, e em cada um delas tem um “momento página dupla da HQ”, onde vemos, em câmera lenta, um momento épico da luta, com os personagens em poses heroicas. Essas cenas são muito boas e dão um toque especial às sequências de ação do filme.

O roteiro, escrito por Chris McKenna e Erik Sommers consegue um feito difícil: trabalha vários personagens, e consegue equilibrar perfeitamente a importância e o tempo de tela de cada um. Só não digo que o roteiro é perfeito porque tem uma falha que incomodou muita gente, e me incluo nisso: o Peter Parker está sozinho e aparentemente usa todo o seu tempo ajudando a polícia. De onde ele tira dinheiro para se sustentar? As outras versões do Miranha trabalhavam como fotógrafo jornalístico, mas este aqui não aparece nenhuma vez nesta função. Tudo bem que ele mora num lugar horrível, mas tem um equipamento super top com ele. Quem banca isso?

O elenco todo está muito bem. Tom Holland já é o Homem Aranha há dez anos, este já é o seu sétimo filme como Peter Parker (quatro filmes “solo”, mais Capitão América Guerra Civil, Vingadores Guerra Infinita e Vingadores Ultimato), e aqui ele mostra maturidade ao lidar com os problemas que o personagem passa. Ele mostra boa química com o Justiceiro do Jon Bernthal, as cenas com os dois são ótimas. Florence Pugh está sensacional, pena que aparece pouco. Mark Ruffalo também volta como Bruce Banner, assim como uma breve participação da Marisa Tomei como tia May num flashback. Zendaya e Jacob Batalon aparecem menos nesse quarto filme, mas quando aparecem também funcionam bem. Sobre o vilão, vou comentar depois…

Vamos aos spoilers?

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Homem-Aranha: Um Novo Dia tem um vilão misterioso, que consegue dominar as mentes das pessoas, e pula de corpo em corpo, quase como uma possessão demoníaca – o filme inclusive fala sobre essa possibilidade. Determinado momento a gente descobre quem consegue dominar mentes daquele jeito: nada menos que Jean Grey – sim, uma das principais dos X-Men!

Jean Grey já foi interpretada por Famke Janssen e Sophie Turner, em diferentes versões do grupo de super heróis mutantes. Agora quem assume o papel é Sadie Sink, que faz um ótimo trabalho (apesar de algumas cenas parecerem tiradas de Stranger Things).

Vai ter gente que vai se perguntar “ué, mas a Jean Grey não é do time dos mocinhos?”. Bem, na verdade descobrimos que ela não é extremamente uma vilã, ela está procurando a irmã dela, o vilão real é revelado logo depois. E a gente tem que se lembrar que a Jean Grey virou a Fênix Negra nas outras versões dos X-Men, ou seja, é coerente ela ter um pé na vilania.

FIM DOS SPOILERS!

Uma vantagem de escrever um texto atrasado é que posso comentar sobre a bilheteria. Homem-Aranha: Um Novo Dia está batendo recordes, foi a segunda maior bilheteria da história no fim de semana de estreia (atrás apenas de Vingadores Ultimato), só no primeiro fim de semana chegou quase ao bilhão de dólares. E como o filme é bom, deve trazer espectadores para ver mais de uma vez. Palmas para a Marvel, vamos torcer pra não saírem do trilho de novo.

Aumentaram as expectativas para o novo Vingadores, que estreará no fim do ano…